Propaganda não é a única responsável, mas estimula

Publicitários de todo o país se reuniram em um manifesto que debateu, entre outros assuntos, propostas do Congresso Nacional para restringir a propaganda de bebidas no Brasil.

Para os participantes, as propostas do governo representam censura à liberdade de expressão comercial e, em sua opinião, a propaganda não é responsável pelo alcoolismo.

Mas a considerar os valores gastos em publicidade pelas companhias, e segundo opinião de especialistas, a publicidade influencia o consumo.

“Tem sentido isso? A publicidade não causa obesidade, alcoolismo, acidentes domésticos ou de trânsito”, declarou Gilberto Leifert, presidente do Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar), durante o IV Congresso Brasileiro de Publicidade, realizado na semana passada.

Para ele, as leis existentes já são suficientes para garantir ampla proteção ao consumidor e seria demais pedir a um anunciante que proponha o desestímulo ao consumo.

Um sinal de que as propagandas têm sua responsabilidade no estímulo do consumo de álcool são os valores gastos em publicidade por empresas fabricantes de cervejas. Segundo o Ibope, em sete anos, os investimentos em publicidade de cerveja saltaram de R$ 180,4 milhões em 2000 para R$ 961,7 milhões em 2007 – ou seja, cinco vezes mais.

Com a entrada da Nova Skin no mercado, em 2003, e a fusão de grandes grupos, a briga se tornou ainda mais intensa.

Responsabilidade

Para o Dr. José Ciro de Paula Barreira, médico psiquiatra do Grupo VIVA, a veiculação de propagandas nos meios de comunicação tem, sim, certa responsabilidade em relação ao consumo de bebidas alcoólicas, embora reconheça que as razões para que uma pessoa se torne alcoólatra são de caráter múltiplo.

“Não podemos dizer que a propaganda é a única responsável, pois ninguém se torna dependente sem ter pré-disposição biológica e psicológica; o fator social também pode influenciar. Mas o certo é que com os apelos utilizados pela propaganda – sexo, ascensão social, aceitação em grupos, o estímulo é grande”, diz.

Para o psiquiatra, se as famílias são estruturadas, a chance de haver problemas com álcool são muito menores. “Agora, em vez de só punir, o governo também deveria investir em programas sócio-educativos, mais ambulatórios, programas de educação continuada, para que a população crie uma cultura sobre o problema do álcool e de outras drogas. Só proibir não resolve, tem é que educar”, diz Barreira.

“Não adianta nada o filho ser poupado de ver propaganda de bebidas e o próprio pai incentivar o consumo dentro de casa, dando a ele a espuminha da cerveja ou o caldinho doce do final da caipirinha”, finaliza.