Matéria Especial “Jovens, álcool e direção”

Na Pista, nove voluntários comprovam o que muitos fazem questão de ignorar: a mistura de álcool e direção pode ser fatal

 

“Fiquei com dó dos cones”

Na Edição de Setembro de 2003, em reportagem de André Ciasa, Quatro Rodas comprovou que o álcool afeta as pessoas ao volante muito antes do que elas imaginam.

 

 

Na ocasião, levamos voluntários entre 24 e 33 anos à pista para medir os efeitos da bebida na direção. O resultado foi o esperado: a cada dose de cerveja, os motoristas passavam a derrubar obstáculos pelo caminho e aumentavam a velocidade e o tempo de reação.

 

 

 

Decidimos refazer o teste, em condições especiais. Convidamos nove voluntários entre 18 e 25 anos para uma prova noturna, reproduzindo as condições de visibilidade em que grande parte dos jovens dirige e se expõe a riscos.

 

 

 

. Divididos em 3 grupos, eles testaram não apenas os efeitos da cerveja, mas também os da “vodca ice” – bebida que a maioria considera leve, mas de teor alcoólico superior ao da cerveja – e o da vodca misturada com energético, drinque comumente consumido pelos jovens.

 

 

 

A cada dose, os voluntários davam uma volta completa no percurso. O teste foi conduzido pela equipe do Centro de Pilotagem Roberto Manzini, que preparou o percurso e registrou todos os detalhes – de um cone derrubado à má postura ao volante. Os voluntários eram sempre acompanhados de um instrutor. Ao voltar da pista, era feito o exame de alcoolemia, conduzido por Eduardo Carvalho, especialista de produtos da Dränger, fabricante de bafômetros que nos cedeu um aparelho.

 

 

 

As reações fora da pista eram monitoradas pelos médicos Alberto Sabbag e Flávio Emir Adura, da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, e Vilma Leyton, toxicologista da Faculdade de Medicina da USP. Eles registram as alterações clínicas manifestadas a cada dose.

 

 

 

Após a volta de reconhecimento, os nove, sóbrios, deram sua primeira volta no circuito. Todos disseram que a tarefa parecia ser difícil, mas que na verdade era bem simples. Após a primeira dose, voltaram da pista seguros de que fizeram a volta bem melhor que quando estavam sóbrios.

 

 

 

“Fiz sem derrubar nada e bem mais rápido”, disse Hani Hallage, 19 anos. De fato, ele ganhou tanta confiança com a primeira dose que fez o percurso quase na metade do tempo. O que ele não percebeu é que se posicionou de forma inadequada ao volante, perdeu o controle de aceleração e frenagem, usando os pedais bruscamente, e mostrou-se perdido no slalom. E derrubou, sim, um cone no percurso.

 

 

 

Apartir da segunda dose, já eufóricos, os voluntários desciam do carro rindo das próprias peripécias. O estudante Jonas Chen, 20 anos, era um dos mais animados. “Ai, ai… Fiquei com dó dos cones”, gritou após a terceira volta. Enquanto aguardavam a vez, o assunto entre eles passaram a ser as histórias já vividas com o álcool ao volante. “Eu não bebo e dirijo, por que na única vez em que fiz isso, bati o carro”, diz Pámela Morais.

 

 

 

Uma das mais afetadas pelo teste foi a estudante Lais Vivan, 21 anos. Com uma só dose de vodca com energético, extrapolou o limite legal de álcool no ar exalado – 0,3 mg/l, que corresponde a 0,6 g/l de álcool no sangue. Se antes do teste declarou ter o costume de beber bastante sem se alterar, Lais mudou de idéia assim que percorreu o circuito sob o efeito da primeira dose. “A partir de agora eu já não dirigiria. Nunca imaginei que fosse tão grave assim”, disse. Na ultima volta, derrubou incríveis 29 cones.

 

 

 

“Os canos estavam pulando”. Outro caso que chamou a atenção foi o do programador Luiz Felipe Volpato, 22 anos. Enquanto consumia a quarta latinha, disse estar enjoado de cerveja e pediu pra trocar pela vodca. Como negamos, ele preferiu parar. Entretanto, pressionado pelos colegas, foi para pista decidido a prosseguir com mais uma rodada. O resultado foi desastroso. Sóbrio, fez uma volta quase perfeita, mas com duas doses mostrou-se completamente incapaz de dirigir. Fosse no trânsito, teria sido multado por excesso de velocidade – passou a 76 km/h onde o limite era de 50 km/h -, avançado o sinal vermelho e atropelado um pedestre. “Juro que os cones estavam pulando na minha frente”, dizia. Instrutores e médicos acharam mais prudente abortar a ultima dose.

 

 

 

O mais preocupante é que, ao fazer o teste do bafômetro, Luiz Felipe encontrava-se no limite legal do álcool. “Pela lei, ele ainda poderia dirigir. Mas no teste ficou evidente que antes disso ele já estava muito agressivo e representaria um perigo enorme”, diz o instrutor Roberto Manzini. Como esperado, os sinais de intoxicação alcoólica variaram de pessoal para pessoa, em razão da massa e gordura corporal, sexo, idade, conteúdo estomacal e experiência anterior com o álcool, entre outros. Felizmente, a ambulância que lá estava de prontidão voltou para casa sem trabalhar.

 

 

 

E, ao fim do teste, a festa parecia estar apenas começando para o grupo, que estava no auge da euforia. A Farra continuou na van, que deixou um por um em casa. Àquela altura, eles já sabiam por si mesmos que dirigir depois da bebedeira seria uma péssima idéia.