Estigma do problema inibo a procura por tratamento

Nos dias atuais, a pressão social da mulher para ser bem sucedida em todos os aspectos da vida, aliada a possíveis fatores genéticos, são alguns dos ingredientes que contribuem para a vulnerabilidade feminina para o alcoolismo. A doença, ainda hoje tratada como um assunto estigmatizado, gera conseqüências muito mais graves às mulheres do que aos homens.

Embora o índice de alcoolismo seja menor entre elas, sabe-se que o impacto na saúde física da mulher acontece com doses mais baixas do que as toleradas pelos homens.

Enquanto no homem o risco de desenvolver uma cirrose acontece entre 10 e 15 anos após o início do vício, na mulher essa média cai para 5 anos.

As conseqüências podem ir desde lesões no fígado até problemas ginecológicos, como menstruação ausente, abortos espontâneos e mesmo infertilidade.

Além disso, são cada vez mais comuns problemas com bebês de mães alcoolistas: nessas condições, a criança tem 35% de chance de ter dificuldades no desenvolvimento físico e mental.

A saúde emocional também é profundamente afetada pela doença. A vergonha, a perplexidade e hostilidade da família diante do problema, o medo de perder a guarda dos filhos, a sensação de não ter saída e a dificuldade de pedir ajuda são motivos que colaboram para levar muitas mulheres ao suicídio. Muitas, aliás, não encontram apoio nem mesmo no companheiro, que se nega a enxergar a doença.

Panorama geral

Até algumas décadas atrás, o início e o aumento do consumo de álcool entre as mulheres era, em geral, mais tardio. Hoje, o consumo se aproxima cada vez mais do padrão masculino. O perfil atual é o de uma mulher entre 18 e 25 anos, e que bebe ou começa a beber pelas suas relações sociais ou profissionais. No Brasil de hoje, para cada oito homens, existem quatro mulheres alcoolistas; há dez anos, esse número era de oito para uma.

O problema cresce não apenas no Brasil: a incidência em outros países, como nos Estados Unidos, está praticamente equivalente à do nosso país. Além disso, o incentivo da mídia ao consumo de bebidas alcoólicas e uma maior independência da mulher em relação a antigos costumes exclusivos para homens, como o hábito de beber, mudaram radicalmente o contexto em que se inserem as pacientes. Elas consomem mais bebida hoje porque são estimuladas e liberadas a fazer isso.

Apesar de já ser tratado com maior abertura, o alcoolismo entre as mulheres é ainda um assunto discutido com reservas. O diagnóstico desse problema na rede primária de atendimento médico é ainda deficiente e pouco valorizado. Muitos médicos, apesar das evidências clínicas, evitam tocar no assunto por “questões morais”.

As barreiras podem ser estruturais, como falta de creche para os filhos e ajuda legal; pessoais, como desemprego e dependência financeira; e/ou sociais, como oposição do companheiro. A prevenção e o tratamento da dependência alcoólica em mulheres devem ainda levar em conta os fatores sociais particulares de cada paciente: o padrão de ingestão de drogas, os aspectos sócio-culturais, a dinâmica familiar e as conseqüências decorrentes do abuso do álcool são fundamentais para a caracterização das diferenças de cada caso.

É preciso que sejam desenvolvidos programas específicos para as mulheres, visando implementar estratégias particulares às necessidades do gênero feminino.

Fonte: Dra. Dorit Wallach Verea / Atmosfera Feminina